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cinemaníaco
escritor
bem dotado
[+] Sentiu minha fanha falta ?!
É porque eu finalmente consegui o domínio jamesbond.blogger.com.br
que estava em mãos alienígenas há tempos.
Agora eu me mudei definitivamente para lá.
Mas não se preocupem, o Casino Royale continuará editando,
sempre que possível, novos capítulo de ØØ7 - O Último Trem Para Londres.
Vejo-os no meu novo blog.
E aqui também.
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 12 - A Mulher Com Cheiro de Café da Manhã
Jåµë§ ßønd acordou de um pesadelo que o deixou arfando, desperto, naquela cama estrangeira, tão diferente do seu apartamento em Londres. O suor que escorria do seu corpo certamente não havia sido provocado só pelo calor daquele país. Alguns de seus fantasmas pessoais vieram à tona durante o sono e mesmo que neste momento a lembrança de seu sonho desaparecesse, ele sabia que o que quer que fosse, voltaria uma outra noite.
O cheiro de café o trouxe de volta de seus pensamentos e buscou o relógio que deixara em cima do criado-mudo. Era muito tarde, tarde demais. Levantou-se nu, caminhando em direção da cozinha, sentindo o reconfortante frio sob seus pés do piso de material especialmente colocado provavelmente para este efeito.
Vislumbrou Sarah sentada na bancada que dividia cozinha e copa, dessas que se vêem em revistas de decoração e são tão populares nas novas ricas construções. ßønd nunca antes havia se interessado particularmente por este assunto, mas ao ver uma mulher de cabelos muito negros e olhos cruéis vestindo apenas uma camisa masculina e segurando uma velha caneca cheia de café fresco, não pôde deixar de imaginar nesta imagem uma foto decorativa que poderia ilustrar qualquer revista para homens, teoricamente chamando atenção para a arquitetura interior.
Sentindo que o desejo poderia ser denunciado, uma vez que nada escondia seu ventre, dirigiu seus pensamentos aos acontecimentos brutais da noite anterior. Foi também o primeiro a quebrar o silêncio :
" Bom dia, Sarah. "
Ela apenas moveu a cabeça, com um meio sorriso. Insistiu :
" Talvez depois deste café, de gosto provavelmente duvidoso, poderíamos pôr em prática nossos movimentos. "
A reação foi a esperada, desta vez.
" Em primeiro lugar, meu café é ótimo. Duas ou três semanas de tocaia em portos ou galpões pelo mundo me fizeram apreciar a arte de preparar minha própria comida e bebida em situações adversas. " - e finalizou :
" E em segundo lugar... bem... tivemos um pequeno contratempo. Por isto deixei que você dormisse mais tempo. "
Ele deu a volta pela bancada, servindo-se de um pouco do líquido negro fervente. Aproximou-se por trás dela, sentindo o cheiro de seus cabelos e as memórias da noite retornaram rapidamente. Ela se esquivou com alguma sutileza, apenas o bastante para que ele notasse seu desconforto. Não perguntou nada, apenas foi procurar suas roupas que estariam em algum lugar perto da cama. Não as encontrou. Aos invés delas, uma familiar mala aguardava ser aberta. Antes que ele pudesse perguntar, ela se adiantou :
" Não se preocupe. Tomamos todas as providências para transportar nossos pertences sem chamar a atenção de quem possa estar no nosso encalço. "
" Não estava preocupado " - mentiu - " tenho tudo que preciso bem aqui. "
E de um fundo falso em sua mala, retirou clips de munição com os quais recarregou sua Walter no mesmo instante.
" De fato. " - ela retrucou.
Não trocaram muitas palavras algum tempo, ambos procurando ser discretos e eficientes. ßønd pesquisando e relendo o material sobre o homem que deveriam encontrar e Bat-Seraph ligando para seus contatos e conseguindo os papéis e permissões necessárias.
Ela explicara que com a morte de Schuved, o consulado estava receoso em conceder a visita e que o Mossad tivera que pressionar um pouco o governo americano oferecendo em troca algumas facilidades e informações secretas. Mesmo com a permissão dada, levaria um pouco mais de tempo e trâmites legais subseqüentes. A hora do encontro fora remarcada para o final do expediente local, quando o movimento de cidadãos brasileiros fosse quase nulo.
Ele interrompeu sua leitura, achando que esta era uma boa hora para tocar num assunto delicado demais, mas impossível de não ser resolvido.
" Sarah... diga-me. Sei que é procedimento do Mossad manter laços de sangue entre os agentes. Manter tudo em família. Mas por que não me contou sobre seu irmão ? "
Ela não se mostrou abalada e apenas respondeu secamente :
" Isso faria alguma diferença ? "
Ele não tinha uma resposta boa o suficiente.
" Eu não a deixaria envolve-lo diretamente neste negócio sujo. Mas acredito que você não tivesse exatamente uma escolha não é ? "
Desta vez, ela não respondeu. Não porque não quisesse retrucar, mas provavelmente porque não pudesse. Tudo porque o Mossad gostava de manter tudo em família. E até esta família preferia lavar sua roupa suja em casa. Em algum lugar, em algum momento, sabia que alguém iria responder por este erro. Mais do que isso, ele sabia, ela não diria.
ßønd imaginou que o assunto se encerraria.
Qual não foi a surpresa quando ela lhe perguntou :
" Você já perdeu alguém importante em campo ? "
Neste exato momento, por causa destas palavras, lembrara de seu sonho.
Balas penetrando carne branca e macia. Cabelos ruivos contrastando com a pele e combinando com o rubro de sangue derramado. Outras lembranças o atacaram. Um corpo em rigor mortis, pousado na mesma posição, findando uma sofrida e breve vida. Vida ceifada por si mesma, por medo irracional.
" Já. Algumas vezes. " - ele respondeu. Era uma resposta desnecessária. Ela o estudou no passado e lera um dossiê completo dele. Sabia exatamente do que ele estava falando.
" Então sabe que isto só terá fim quando descobrirmos os responsáveis pela morte de meu irmão. "
" Os chineses costumam dizer que antes de sair em busca de vingança, cave duas covas. A primeira é para seu inimigo, e a segunda é sua. "
" Eu não busco apenas vingança, Jåµë§, impedir os planos destes bastardos e servir ao meu país como eu jurei vem primeiro. "
Ele sorriu e pegou a Walther, acoplando a ela o silenciador, e depois pondo de volta no coldre. Em seguida setenciou :
" Neste caso, vamos chegar antes ao fundo desta conspiração e terminar o serviço. "
" E depois... ? " - ela perguntou confiante.
" E depois... " - puxando a Walther novamente e exibindo-a - "... depois vamos preencher aquela primeira cova da qual falei com a maior quantidade de corpos que pudermos. "
Fim do Capítulo 12
[+] Aviso Aos Navegantes
- Não, eu não esqueci dos meus leitores.
Mas os compromissos da real life estão tomando boa parte
do meu tempo e eu não quero colocar capítulos frívolos e
sem qualidade de 007 - O Último Trem Para Londres para vocês.
Em breve, estarei de férias e com tempo livre para concluir
esta saga e dar início a uma nova fase de blog.
Por enquanto, o que virá depois do conto é segredo.
E, vocês sabem, segredos são a minha especialidade.
J.
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 11 - A Mulher Com Cheiro de Tâmaras
Ela caminhava por entre as ruas com desenvoltura e a firmeza de quem não é apenas visitante. Os seus passos, não obstante, denotavam pressa e ansiedade de chegar cedo no encontro marcado previamente. Vestia um terno feminino marrom e enormes óculos escuros, muito desproporcionais, que escondiam seu olhar felino por trás de lentes grossas e soturnas.
Numa manhã de sol como esta ela jamais passaria despercebida em vários lugares do mundo e New York era um deles. Na cidade que nunca dorme, os seus olhos estão sempre atentos para quem passa. Ela saltara de um táxi resolvendo ir a pé até o prédio luxuoso localizado na Broadway Avenue, próxima da 5th Avenue, onde seu empregador a esperava.
Chegando à recepção do prédio, falou rapidamente com a segurança, cuja indicação do elevador correto ela agradeceu e apertou o botão apropriado. As portas se fecharam atrás dela quase no mesmo instante em que entrou no cubículo móvel que a conduziu ao último andar rapidamente. No abrir de portas, um apartamento gigantesco e bem decorado, do tipo que se vê em revistas de imprensa marrom, revelou-se para ela.
Um serviçal de origem árabe a recebeu, oferecendo um drinque e avisando-a ficasse à vontade e que, quando retornasse, traria o que ela viera buscar. O serviçal profissionalmente conteve seu arrebatamento quando a mulher convidada retirou seus óculos e soltou seus longos cabelos vermelhos em demonstração de relaxamento e acolhimento.
Antes de se retirar a outros cômodos e retornar a seus afazeres o serviçal não pôde deixar de espiar uma vez mais a misteriosa figura agora sentada adequadamente na sala de estar.
Pele muito branca, olhos sagazes, cabelos vermelhos de uma cor nunca vista em seu país antes, como só mesmo as ocidentais poderiam mixar as cores. Apesar de sua roupa discreta ele deduzira que seu corpo magro e esguio guardava secretamente curvas nos lugares adequados.
Era certamente alguma nova aquisição de seu mestre. Por um momento, ficou feliz em servir a um homem de tanto bom gosto e desejou por um momento estar em seu lugar. Ter o seu poder.
A mulher aguardou pacientemente até que seu relógio marcou 15 minutos desde que chegara ao recinto. Seguindo seus instintos, imaginou que algo podia estar errado.
De maneira discreta, percorreu com os olhos o cômodo em busca de câmeras que certamente a observavam e se dirigiu até o bar, onde imaginou ser a melhor posição no momento. Atrás do balcão, admirou algumas garrafas, remexeu algumas taças como se buscasse a combinação ideal para uma coquetel. Finalmente agarrou um balde de gelo e enquanto preenchia um copo de whisky deixou secretamente escorregar algo para dentro.
Neste momento, o serviçal voltou aparentando tranqüilidade e sorriu ao ver que ela carregava o balde de gelo com ela ao retornar para o sofá. Deixou-o na mesa em frente e apenas serviu-se de uma pequena dose da garrafa que apanhara.
" Meu mestre infelizmente não poderá se apresentar, mas falará com você por conferência. " - disse o serviçal, ligando um botão que fez descer uma tela grande e que revelou, após alguns toques de controle remoto, a face de seu empregador. Depois prostrou-se numa posição e lá ficou, imóvel, por detrás da mulher.
" Bom dia, minha cara. " - a voz iniciou.
" Bom dia. O seu convite foi inesperado. Normalmente nossos negócios são resolvidos por meios convencionais. "
" Sim, mas este ainda está incompleto. "
" Incompleto ? O mundo inteiro viu Faishad Al-Haud ser assassinado e a honra inglesa ser humilhada ao vivo ! "
A mulher semi-cerrou os dentes mostrando orgulho.
" Não questiono seus métodos ou eficiência, minha cara amiga, e sim as conseqüências dos atos perpetrados. Recebi informações que agentes aliados estão investigando o seu colega morto. "
Ela calou-se por um momento e pensou um pouco sobre o que foi dito. Maturou as idéias e chegou à conclusão óbvia.
" Mohamed " - respondeu calmamente.
" Exatamente. Cedo ou tarde eles chegarão a você. Chegando a você, podem chegar a mim.. não, não diga nada, você sabe que eles podem conseguir se tiverem a força de vontade necessária... o resto, você sabe. "
" Não me ameace, é muito indelicado de sua parte. "
" Eu não faço ameaças, minha cara, apenas estou mostrando os fatos e seu provável desenrolar. "
A mulher ruiva tomou uma decisão ao ouvir estas últimas palavras. Puxou o balde de gelo para mais perto, fora do alcance da visão do serviçal e pegou mais uma pedra.
" Então está decidido. Eu vou eliminar os agentes responsáveis pelo caso e isso atrasará a investigação tempo suficiente para você completar seu graaaande plano. " - disse com muita ironia o final de sua frase.
" Mais 5 milhões de dólares cobrirão seu infortúnio ? "
" É aceitável, uma vez que não é ninguém importante desta vez. "
E continuou :
" Mas eu não gostei de sua atitude. E, apenas por isso, vou ter que lembra-lo do porque me contratou para este trabalho. "
Levantou-se velozmente, atingindo com seu cotovelo o nariz do serviçal, atrás dela, que caiu de joelhos pela dor. Em seguida, alcançou com a mão a pequena beretta que escorregara de sua manga para o balde de gelo e a apontou para a gigantesca tela.
Por um momento, o seu empregador mostrou incredulidade pela brutalidade ocorrida e a insanidade de ver aquela linda mulher apontar a arma para a tela do monitor.
Sorrindo, ela desviou a mira para o serviçal, ainda no chão, e disparou em sua testa antes mesmo que ele pudesse protestar. O árabe tombou morto e um filete de sangue muito fino escorria de sua cabeça.
" Isto foi desnecessário. " - o homem disse, friamente.
" Não. Não foi. "
" As informações sobre seu alvo e planos estão dentro da túnica dele. " - disse o homem.
Ela foi até o corpo, guardou a arma e procurou por um envelope na túnica do serviçal. Depois pegou o controle remoto, apontando-o na direção do monitor.
" Agora ambos sabemos do que somos capazes. Entro em contato quando terminar a missão. " - e desligou o aparelho.
Abrindo o envelope, achou um passaporte brasileiro e um resumo da missão junto com números de contatos para buscar apoio no local.
Pôs seus óculos escuros e chamou o elevador, sorrindo ao notar que no passaporte constava um nome que ela não saberia pronunciar direito. A língua portuguesa nunca fora seu forte, nada que a impedisse de usar passaportes de lá.
Depois de tantos anos, já quase esquecera seu nome verdadeiro de tantos que já assumira e vivenciara, mas no mundo de mortes súbitas e atos hediondos ela era conhecida por apenas um nome.
Kali. Escolhera em homenagem à deusa hindu da morte.
Pois era, atualmente, a assassina mais perigosa do mundo.
Fim do Capítulo 11
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 10 - Um Jogo Para Dois
Enquanto as mãos de ßønd cravavam-se nos quadris de Sarah puxando-a para si, penetrando-a mais e mais fundo, ele sentia o seu perfume e observava excitado o balançar de seu cabelo e percebia que ela não mudara quase nada desde a última vez que estiveram tão próximos. Talvez um pouco mais velha e experiente, sim, mas a insolência em seus olhos, o calor que emanava de seu corpo e a ilusória sugestão de ingenuidade ainda estavam ali intactas.
Uma estocada forte a fez levantar o rosto e abafar um gemido que só a antecipação do gozo poderia provocar. Aumentou o ritmo, desajeitadamente beijando suas costas e velozmente a consumindo profundamente como se fosse a última mulher de sua vida.
Subitamente, a virou, ergueu seu delicado corpo nos braços e a sentou na enorme escrivaninha ao lado da cama do apartamento onde estavam. Abrindo suas pernas, postou-se no meio delas e lentamente se aproximou num encaixe perfeito, quente, até que suas bocas estivessem próximas o suficiente para um beijo, que ela retribuiu vorazmente.
Algumas horas se passaram quando ßønd finalmente acordou e viu Sarah Bat-Seraph dormindo ao seu lado naquela cama de tamanho considerável, que ele não esperava estar esta noite e também onde tudo começou.
Após a fuga, ßønd decidira se abrigar aonde seus perseguidores não conseguiriam deduzir... na propriedade do seu contato assassinado. O Aston Martin brilhava por entres as vielas escuras da Zona Sul do Rio de Janeiro, observado por transeuntes e vigilantes de condomínios que pareciam não estar familiarizados com seu automóvel. Sabia que era uma questão de tempo até serem localizados pela polícia local, caso alguma testemunha os tivesse visto partir.
" Eu sei que você sabe onde estas chaves se encaixam, Sarah. " - disse balançando o chaveiro que retirara do corpo de Schuved.
" Sim, eu realmente sei. Mas não iremos para a casa dele. Ele possui um outro apartamento que é ideal para nós e do qual poucos sabem a respeito. "
Ela o conduziu até um condomínio discreto e pequeno a muitos km dali, escondido na subida de uma colina, perto da entrada da Zona Oeste da cidade. Sarah parecia conhecer muito bem a cidade e - principalmente - o caminho até a casa de Schuved. Ele se surpreendeu. A relação deles era mais profunda do que imaginara, mas não era hora de pensar em mexericos, e sim em sobreviver a esta noite em algum lugar seguro.
Ao estacionar o Aston e travar seu sistema de segurança no nível máximo subiram em seguida o elevador para o terceiro andar que se revelaria a entrada de um espaço único, como um loft, muito bem decorado com detalhes étnicos nativos e pouco lembrando a origem de seu dono, a não ser por alguns livros políticos em estantes de madeira de lei e símbolos judaicos aqui e ali dispersos. Lembrava a ØØ7 sua casa no campo, onde usava para fugir dos problemas e levar novas namoradas e amantes.
Um refúgio desligado de sua vida cotidiana. Sentiu certa simpatia pelo homem que agora jazia morto em algum lugar da cidade e que abusavam de suas posses agora. Sarah estava sentada na cama king size, espalhada, retirando sua arma do coldre em suas coxa, retirando o pente e colocando ambos em cima do criado-mudo. Seu olhar tornando-se distante a cada segundo e sua boca nada dizendo.
Ele olhou ao redor e encontrou algo desconcertante. Fotos de Sarah sozinha ou acompanhada do homem que conhecera brevemente, mais jovens e felizes, sempre com um sorriso inocente e descontraído. Então ßønd percebeu que cometera um erro de julgamento que agora estava claro à sua frente.
Aproximou-se de Bat-Seraph e disse :
" Era seu irmão, não era ? "
Ela voltou apenas o rosto e por alguns instantes o analisou, pensando na resposta e se ela deveria mentir ou dizer a verdade. Algumas lágrimas desceram sem controle, ao que ela revelou :
" Sim. Era meu irmão mais velho. "
Sentiu que deveria ficar em silêncio agora, entretanto, a curiosidade era mais forte do que ele - " E como conseguiu esconder isso do serviço de inteligência ? "
" Eles sabiam. " - respondeu e após respirar fundo, continuou : " após nosso ingresso no Mossad, foi decidido que nós deveríamos mudar de identidade e histórico para que nossa família não fosse alvo de retaliações."
Tudo se encaixava perfetamente, se fosse verdade. A sensação familiar e o incrível conhecimento dos caminhos da cidade. O motivo verdadeiro pelo qual tinha sido escolhida para ajudá-lo. Não tinha a ver com seu passado em conjunto e sim, como uma imensa vantagem ter uma agente que conhece o campo de batalha. Mas o preço disso saiu caro demais para ela.
" Então Sarah Bat-Seraph seria, na verdade... Ruth... Mariah.. ? " - perguntou.
" Sarah... Sarah Kadoch. Eu pedi que este link com meu passado fosse mantido. E acabei me acostumando com Bat-Seraph. É um nome imponente, não acha ? " - sorriu de sua própria amargura.
Ela estava muito vulnerável, talvez pela primeira vez em anos e ßønd não quis pressiona-la mais. Tantas perguntas gostaria de fazer mas as que importavam para o momento estavam muito transparentes.
Por uma questão de urgência, o Mossad permitiu que ambos trabalhassem juntos neste caso. Para todos os efeitos a sua relação para os olhos de quem não os conhecia passaria como de amantes e não de família, o que justificaria visitas e contatos ocasionais, cuja ocorrência se disfarçaria de atitude anti-ética entre profissionais e nada mais.
Outros serviços de inteligência jamais permitiriam isto, mas o Mossad era diferente e já sacrificara tanto de seus membros que este pequeno arranjo era considerado misericordioso.
" Sinto pela sua perda, mas não ficará sem punição. Você sabe disso. Cedo ou tarde, alguém terá que responder por isto. " - tentou confortá-la mas isto não era exatamente sua especialidade. Ela apenas concordou com a cabeça, cujas lágrimas já secavam.
Depois de se acomodarem no elegante loft e após preparar um jantar adequado, a conversa entre eles continuava profissional e distante, sempre calculando e planejando. Em algum momento, ßønd sentiu que mais nada poderia ser feito e disse :
" Temos que descansar pois amanhã será um dia cheio. " - Quando ele se preparou para ir dormir na ama que fizera no chão, ela o pegou pelo braço, detendo-o.
" Ainda não. "
Seus olhar mudou, implorando por conforto. Talvez esta fosse a sua maneira de lidar com a dor ou talvez fosse uma atitude desesperada. Podia ser apenas o sexo pelo sexo, coisa da qual ele sabia que Sarah seria capaz.
Mas agora, no tempo presente, onde ßønd enchia um copo de leite para ajudar a dormir, ele tinha certeza de que, seja qual fosse o motivo pelo qual ela o arrastara para a cama e ficara completamente nua na sua frente, livrando-se da camisa que vestia no lugar do surrado vestido estampado, ela jamais recusaria a oportunidade de confortar a mulher que despertava nele sempre os desejos mais impuros.
Porque, afinal, isto sim era sua especialidade.
Fim do Capítulo 10
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 9 - A Dois Passos do Paraíso
A bala acertou o alvo a 10 metros de distância.
Onde antes existia um órgão vital agora provavelmente exibia-se apenas uma nefasta mancha vermelha escapando sangue e outros fluidos indefiníveis. O homem ajoelhou-se no chão sem forças para segurar nem mesmo sua própria arma. O segundo disparo terminou o serviço, explodindo o pescoço e quase separando sua cabeça do corpo, o qual tombou definitivamente.
" 2 balas, restam 12 " - o pensamento ocorreu a ØØ7 assim que pôde se levantar e mirar nas pessoas cujo único propósito era garantir que nem ele e nem Sarah Bat-Seraph saíssem com vida dali.
Abaixou-se a tempo de ver que as rajadas de fuzil de assalto, provavelmente M4, em retaliação. Seu instinto estava correto. O crime organizado não arriscaria uma ação ofensiva na área nobre do Rio de Janeiro a não ser que fosse muito bem recompensado e com alguma garantia de saírem ilesos. Estes atacantes não eram locais, ßønd estava quase certo que eram mercenários internacionais.
Melhor para ele, suas chances melhorariam.
Percebeu que a garçonete que lhe servira o martini ainda estava agachada buscando proteção atrás de uma mesa próxima à entrada da cozinha. Fez um silencioso sinal militar para Bat-Seraph indicando o caminho e que a cobriria enquanto isso. Bat-Seraph apertou o gatilho algumas vezes e correu em direção à cozinha, empurrando a garçonete no caminho para tirá-la do torpor. ßønd disparou mais algumas vezes na direção dos oponentes, protegendo-as.
Respirou fundo e se retesou preparando-se para pegar impulso. De repente, mudou de idéia e rolou para o lado onde estava o corpo de Schuved. Vasculhou seus bolsos, encontrando sua carteira e suas chaves. Agora sim ele poderia se arriscar a partir. Levantou-se de primeira e correu sem olhar para mais nada a não ser a porta salvadora. Pedaços de plástico e vidro voavam atrás dele e na frente e o som da descarga dos fuzis era agora incessante.
Atravessando o portal da cozinha, Bat-Seraph o esperava em uma das saídas verificando a segurança. Ela foi em frente, enquanto ØØ7 avistou um objeto na pia e o guardou no paletó e só depois a seguiu. A garçonete - que se sentira mais segura agora - mostrou a ambos a saída, abriu a porta e fugiu o mais rápido possível do local. Não havia problemas em deixá-la só agora. Não era exatamente ela que os inimigos queriam.
Sarah sinalizou que iria atravessar a rua e ßønd indicou a direção em que o Aston Martin estava estacionado. Com alguma sorte, eliminariam a maior parte do comboio, permitindo sua fuga com mais facilidade.
Isto não poderia se alongar, a experiência de ßønd no país dizia a ele que logo a polícia local chegaria atirando primeiro e perguntando depois o que ocasionaria baixas terríveis para o lado da lei, algo que ele não poderia permitir pois comprometeria toda a investigação.
Atravessaram a rua com armas em punho e olhos atentos. Não demorou para que dois atacantes surgissem pela porta do restaurante mirando e atirando e Sarah jogou-se no chão procurando dificultar o trabalho dos assassinos. ßønd procurou abrigo atrás de um enorme utilitário estacionado do outro lado da rua. Precisava melhorar as chances de Bat-Seraph, que rolava agora para mais perto dele.
A primeira rajada dos fuzis atravessou as janelas do automóvel, causando pânico nos motoristas que cruzavam a pista até então despreocupados. Ele se abaixou e por debaixo do veículo conseguia ver Sarah atirando de volta com seu corpo jogado ao chão. O segundo atirador levantou um walkman para informar sua posição e dando a ØØ7 os segundos que ele precisava. Esticou os braços por entre as janelas estilhaçadas, perdendo um segundo para mirar. Fez um disparo. Dois. Três.
O walkman do segundo atacante foi o primeiro a atingir o solo, seguido do seu dono, pois o segundo e terceiro disparo perfuraram seu peito matando-o. ßønd olhou para Sarah, que se protegera debaixo do chassi do enorme utilitário e atirou também. Nenhuma de suas balas acertaram o alvo mas forçaram seu oponente a se esconder atrás de um veículo, na calçada oposta vendo que estava em desvantagem numérica. ßønd e Sarah sabiam que seu próximo passo seria informar os outros onde estavam.
Não que fosse necessário.
Após este pequeno combate todos sabiam o que acontecia naquele pedaço do quarteirão. Ainda teriam que atravessar uma pista movimentada e chegar até o Aston Martin. Sarah saiu pelo outro lado do veículo e postou-se ao lado de ßønd.
" E agora ? " - ela perguntou.
" Agora não depende de nós. " - ele respondeu.
" No três, então ? " - perguntou. Ele disse que sim.
" 1, 2,..." - o terceiro número foi contado mentalmente e então levantaram-se correndo como nunca antes. Sarah foi na frente com sua Sig Sauer sendo apontada ameaçadoramente para todos os lados por onde eles talvez aparecessem. ßønd foi cobrindo a retaguarda e estranhamente nada avistava.
Atravessaram as duas pistas da avenida, alcançando o carro. Bat-Seraph foi avisada das particularidades do DB9 e não o tocou ainda. ßønd levou a mão ao bolso, trazendo o controle remoto do segredo e desativando-o quando ouviu, saindo de lugar algum, uma voz fria e calma :
" Por favor, não se mexam. "
ßønd não ousou se mover e Sarah apenas voltou-se para localizar o dono da voz.
" Larguem as armas e deixem as mãos em lugar seguro. Ou pelo menos, seguro para mim. "
ßønd deixou a Walther cair, junto com a Sig Sauer de Bat-Seraph logo em seguida. Depois voltou-se com as mãos na cabeça para visualizar o inimigo. O homem de voz fria não era muito alto mas possuía uma aparência de brutalidade que superava qualquer outra desvantagem física. Aparentava ser latino, uma vantagem neste local, ao contrário da aparência bretã de ØØ7. O homem recolheu as armas e continuou.
" Agora entrem no carro, na frente. Eu irei atrás. Minhas ordens são para levar ambos com vida, mas não necessariamente inteiros. Então, qualquer imprevisto serei obrigado a destroçar seus joelhos ou qualquer ponto não vital. "
Sarah tentou esboçar uma reação verbal mas ßønd a deteve.
" Não se preocupe. Vai ser um choque quando nosso anfitrião descobrir do que somos capazes." - disse baixinho.
Então obedeceram inicialmente.
ßønd sentou-se ao banco do motorista, e Sarah ao seu lado o encarou como se perguntasse qual o seu plano. Quando o homem de voz encostou na porta preparando-se para entrar, ßønd apertou um botão no controlem remoto.
A descarga elétrica do sistema de segurança não era mortal, apenas o suficiente para impactar um inimigo e deixa-lo tonto por alguns segundos, como um taser. O homem de voz fria cambaleou para trás, soltando a arma que estava em suas mãos e Sarah saiu do carro, avançando para ele.
Apesar de Sarah ser bem treinada, o homem de voz fria recuperou-se do golpe e a agarrou já pronto para puxar as armas recolhidas. ßønd saiu pelo seu lado da porta mas não entrou na disputa. Apenas chamou por Sarah, que quando o viu entendeu o que ia ser feito.
Quando o homem de voz fria conseguiu desvencilhar uma das mãos e alcançou a Sig Sauer de Sarah, ßønd puxou de seu paletó uma faca de cozinha que roubara do restaurante, jogou para Sarah, que a agarrou no ar e cravou com toda força na têmpora do homem de voz fria.
Ele caiu. Morto antes mesmo de atingir o chão.
Não havia tempo para respirar. ßønd gritou para que Bat-Seraph entrasse no carro e pulou para a direção. Manobrou e saiu do local o mais rápido possível. As sirenes de polícia podiam ser ouvidas já próximas e não deveriam estar ali quando elas chegassem. Entrou por uma paralela à avenida e resolveu ir pelas ruas de dentro, menores, acelerando uma velocidade segura e ultrapassando poucos carros e finalmente parando embaixo debaixo de uma árvore de folhas grossas, usando sua sombra como proteção.
" Eles sabem onde estamos hospedados, qual o próximo passo ? " - Sarah questionou com amabilidade.
" Você me diz. Sou capaz de apostar de que sabe o nosso novo endereço. " - e mostrou as chaves que retirou das roupas de Schuved.
Ela emudeceu, uma vez que não queria amaldiçoar o homem que acabara de salvar sua vida.
Fim do capítulo 9.
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 8 - O Triâgulo
Assim que chegou ao hotel e cruzou as portas da suíte reservada para eles, Bat-Seraph avisou que iria entrar em contato imediatamente com seus contatos, a maioria pertencente à comunidade judaica local. Muito pouco de interessante acontecia neste canto do mundo que pudesse interessar ao Mossad, entretanto, para dias como esses é que o serviço de inteligência israelense se antecipava.
Fez algumas ligações e marcou um encontro. Avisou a ßønd que tinha que sair primeiro para recebê-lo. Deixou um aviso com o endereço de um restaurante com a hora ideal para sua chegada e já se retirava em carreira quando de lance de olho percebeu sua mala ainda aberta.
Foi até ela e ao puxar o zíper olhou na direção do chuveiro, onde agora Jåµë§ se banhava. Sorriu maliciosamente e puxou algo do fundo da mala, levando consigo.
Quando ßønd finalmente saiu da sus demorada ducha, encontrou apenas as indicações de Bat-Seraph e um bloco de notas.
Ao volante do poderoso Aston Martin, Jåµë§ ßønd puxou do bolso interno do paletó a folha arrancada. Conhecia o Rio de Janeiro o suficiente para não se perder completamente, mas mesmo assim não se afastou demais do caminho enquanto apreciava a magnífica paisagem de luzes resplandecentes na lagoa e das que enfeitavam os pontos turísticos tradicionais. Estacionou, ainda que com alguma dificuldade, bem perto da avenida que circundava a lagoa e abriu o porta-luvas.
Seu instinto lhe dizia para não ir desarmado, porém ao carregar sua pistola não levou nenhum clipe extra tentando ser, só esta noite, um pouco otimista. Afinal, era apenas um encontro preliminar.
Carregava em seu bolso apenas documentos, dinheiro e a chave do Aston e no coldre discreto a Walther P99. Deu boa noite à eficiente e linda hostess do restaurante e logo encontrou Bat-Seraph encostada no bar em companhia de um homem jovem e muito bem vestido. Jovem demais para este tipo de trabalho. Aparentavam estar bem confortáveis um com outro, denotando conhecimento prévio.
Ele a admirou por muito tempo antes de se aproximar. Todo o seu corpo agora sendo contornado por um vestido estampado, diria até adaptado ao país, que valorizava e mostrava muito mais do que ela ousaria mostrar em seu país natal, ele imaginava. Mas aqui, nesta latitude, ela estava à vontade para tentar e seduzir com sua sinuosidade todos os homens presentes. Inclusive ßønd. Um pensamento o ocorreu. Onde ela teria conseguido se arrumar que não fosse no hotel ?
Com seu peculiar autocontrole, desanuviou estes pensamentos, deixando-os de lado como se nunca existissem e se aproximou de ambos pegando-os sutilmente de surpresa.
" Boa noite " - ele disse interrompendo a conversa. Ele notou que ela estava também à caráter.
" Olá, Jåµë§ ! Que bom que se juntou a nós. " - disse ironicamente - " este é George Schuved. "
O jovem o analisou com os grandes olhos e em seguida perguntou: " E o senhor é... ? "
" Meu nome é ßønd. Jåµë§ ßønd. " - ele completou, já se adiantando em apertar sua mão.
" Prazer... posso chama-lo de Jåµë§ ? Nós, cariocas, não somos muito formais. "
" Naturalmente. " - ele consentiu com o balançar do rosto - " mas, em que ponto estamos na conversa ? "
" Hmm... estritamente negócios, huh ? Ok... deixe-me ver... ah, sim. Mohamed Ibn Batut está numa cela especial na embaixada americana no centro da cidade esperando transporte para Guantanamo. "
" Qual acusação ? Só por fraudar passaportes ? " - perguntou ØØ7.
" Obviamente, não. O senhor Ibn Batut parece estar ligado a bem mais do que isso e a polícia federal brasileira esteve trabalhando com a Interpol tentando implica-lo como cúmplice em alguns recentes atentados em Bagdá e em Beirute contra cidadãos americanos. Por uma extrema falta de sorte ele foi preso há dois dias e está sendo mantido lá até agora sem que ninguém apele por ele. O governo americano assumiu com o consentimento da República que quer, na verdade, se livrar deste inconveniente. "
" Mas existe a possibilidade de falarmos com ele, não é mesmo ? " - Sarah Bat-Seraph resolveu participar da conversa.
" Sim, sim... mas como eu havia dito antes de chegarmos ao restaurante, ele não está falando com os americanos. Não confia em nenhuma das promessas deles. E quem pode culpa-lo ? "
Bat-Seraph e Schuved soltaram um abafado riso, seguido de outro de ßønd.
Sentiu sede e resolveu pedir algo para beber. Fez sinal para uma garçonete que tinha acabado de sair da cozinha que prontamente o atendeu.
" Por favor, eu gostaria de um vodca-martini. " - ele reparou que seus olhos eram muito atentos, ansiosos - " Batido, não mexido. "
A garçonete anotou sem demonstrar nada perante o pedido pouco usual e nem pediu maiores explicações. ßønd achou que seu drinque favorito estava provavelmente na moda ou algo parecido. Talvez fosse hora de ser original ou deveria permanecer no clássico?
Distraído por estes pensamentos, mas nem tanto, assistiu Bat-Seraph e George Schuved acertando o próximo passo, uma visita agendada à Ibn Batut logo pela manhã.
Quando o martini chegou, sorveu um gole e o deixou no único espaço livre de canetas, agendas e anotações... perto de Bat-Seraph. Encostou de leve em sua mão, fazendo com que ela se retraísse. Uma atitude estranha vinda de Sarah. George assistiu a cena e nada comentou.
Nesse momento, ßønd deduziu tudo.
A troca de vestido.
A aparente cumplicidade de ambos.
O ciúme discreto.
Observou fixamente os possíveis ex-amantes com ar triunfante e continuou a ouvir atentamente o plano. Em certo momento, George Schuved anunciou :
" Acho que por hoje é só, amanhã temos que acordar muito cedo. E eu odeio acordar dedo demais, Sarah. "
" Olhe só, eu também... " - disse ØØ7, olhando cinicamente para Sarah - " ... parece que temos mais uma coisa em comum. "
Antes que Schuved ou Bat-Seraph pudessem argumentar seu comentário, ele pegou sua taça de martini para um último bom gole. Um frio percorreu seu estômago quando um facho de cor vermelha - normalmente invisível - iluminou a taça, indicando a direção de uma mira laser.
ßønd e Bat-Seraph reagiram ao mesmo tempo. Ela pulou em direção ao ponto de luz no peito de Schuved. Mas ßønd a empurrou para o chão, muito mais forte. O som muito baixo de uma janela perfurada foi audível apenas para os presentes mais próximos.
" Saia de cima de mim ! " - ela o virou para o lado procurando por Schuved. Sabia exatamente o encontraria antes mesmo de ver o corpo. George Schuved estava ao chão e tentava falar alguma coisa mas o sangue jorrava de sua boca impedindo qualquer palavra inteligível. ßønd sabia que era uma questão de segundos para que ele morresse e nada poderiam fazer para evitar... a não ser localizar seu algoz.
O público do restaurante percebera o ocorrido e entrara em pânico total, empurrando os que não conseguiam sair mais velozmente. Mas em pouco tempo, o ambiente ficou vazio.
Pegou Bat-Seraph pela mão e a puxou para perto. Ela já estava com sua arma em mãos, tirada do pequeno coldre em sua coxa direita pronta para matar. Ela já estava recomposta mas seus olhos emavam uma ira contida.
" Ele morreu. " - disse devagar.
ßønd puxou sua pistola, se amaldiçoando por ter não ter trazido mais munição e lembrando que seu carro estava a 100 metros dali, espaço suficiente para serem pegos, caso fosse um esquadrão de assassinos.
" Vamos torcer para não termos o mesmo destino."
Fim do capítulo 8
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 007 - Brinquedos Para Homens
A ducha quente da adequada suíte do Caesar Park não podia se comparar àquela que instalara em seu apartamento em Londres ou de sua casa de campo no interior, mas mesmo assim Jåµë§ ßønd sentia-se satisfeito em finalmente estar confortável e poder livrar-se das roupas que estava nas últimas 16 horas. Por mais que adorasse a primeira classe aquele leito ainda era, no final das contas, um cubículo de pouca privacidade e liberdades pessoais.
Mesmo não estando em sua melhor disposição pelo fuso horário, o banho revigorara uma boa parte de seu ânimo. Secou-se muito rapidamente e vestiu seu próprio roupão que trouxera de casa o que lhe fazia sentir como que vestindo um pouco de seu lar. Verificou o frigobar e encontrou uma boa vodca, a seguir escolheu um copo apropriado e serviu-se alguns dedos do líquido incolor. Não se interessava particularmente pela dúvida de sua origem (polonesa ou russa) mas benqueria quem quer que a tenha engarrafado.
Depois de um potente gole serviu apenas mais uma dose e caminhou até a cama onde escolhera roupas limpas, perfume e sapatos, guardou seu relógio Omega e outros itens que certamente não seriam postos à venda no mercado, cedidos pelo chefe da Seção de Armas e Tecnologia - conhecida pela alcunha de Seção Q.
Os longos minutos à disposição das instruções do Quartermaster - cientista-chefe da Seção Q - sobre detalhes tecnológicos só podiam ser menos enfadonhos graças às agradáveis disputas verbais entre ambos e à capacidade e suas invenções. Claro que a impressão era de que apenas ele, ßønd, se divertia do pouco caso com que tratava traquitanas no valor de milhões de libras.
Ao afivelar o belo relógio, repassou mentalmente a noite anterior, logo após ser instruído por M, quando encontrou-se com o velho Q e tentava imaginar que surpresas o laboratório e sua equipe o esperavam.
" Agora preste atenção, ØØ7. " - disse Q assim que ele o cumprimentou na noite anterior. Carregava um dispositivo em suas mãos que ßønd reconhecera instantaneamente.
" Um iPod, Q ? " - comentou - " Acho que alguém já inventou isso. "
" Um com um fascinante dispositivo escuta celular de qualquer freqüência ou operadora ? Eu duvido. " - respondeu Q.
" Ah, sim. " - ßønd fingiu bocejar, o que não abalou o Quartermaster - " e como funciona ? "
" Na verdade, é muito simples. Você aciona este botão aqui, aponte para a direção do alvo que deve SEMPRE estar há uma distância de, no mínimo, 50 metros. Algumas conversas extras podem aparecer, então rotacione o botão para calibrar a freqüência desejada do eletronic serial number da vítima e trave pressionando o botão de baixo. Pronto. "
ØØ7 o tomou de suas mãos e vasculhou a área ao redor... o som cacófato de algumas pessoas surgiu a princípio e ele apontou para a direção do escritório da Srta. Moneypenny. Após sintonizar por alguns momentos soltou um leve riso. Diante do rosto aborrecido de Q, ele desconectou o fone de ouvido e procurou por um computador com caixa de som.
Ao conectar o fone, aumentou o volume para o máximo, assustando a todos no recito e provocando torrentes de risos a cada parte do íntimo diálogo :
" ... mas, Penny, não me diga que ainda não foi pra cama com ele ?! Isso é um desperdício. " - uma voz levemente estridente precedeu a melódica voz de Moneypenny.
" De fato, Jillian, mas se me perguntasse eu lhe diria que nem preciso leva-lo para cama. A minha mesa do escritório já suportaria nosso peso ! "
" Penny, sua pervertida... "
Q saiu de sua surpresa e arrancou abruptamente o fone.
ßønd não deixou por menos : " Tem razão, Q, é fascinante ! "
" Quando você vai crescer, ØØ7 ? " - respondeu.
Dando-lhe as costas momentaneamente, o velho armeiro buscou dentre suas em sua prateleira um outro aparelho para demonstrar. Quando verificou que estava seguro mostrou a ßønd.
" Vamos voltar ao trabalho... olhe bem isto. " - e entregou em mãos.
ßønd analisou o aparelho muito seriamente, contornando e sentindo com os dedos. Pareceu desistir de adivinhar.
" Suponho que isto seja um... pen drive ? "
" Muito bem, ØØ7 ! Pelo visto, resolveu realmente se juntar a nós no século XXI. É um pen drive com capacidade de 150GB de informação e é preparado para armazenar quaisquer dados armazenados com 1024bits de criptografia. Em todo o caso, caso possa haver interceptação, há uma opção interessante. "
Fez uma pausa dramática.
ßønd resolveu lhe dar uma colher de chá.
" E qual é ? "
" Esta trava aqui do lado fará com que se autodestrua em cinco segundos. "
" Ora, eu vi este filme. Dizem que vão filmar a parte 4. "
Q sorriu de lado pela primeira vez desde o início e disse :
" Apenas este você tem permissão de destruir. "
Ambos riram, neste momento.
Depois, Q puxou do bolso mais duas coisas, como se houvesse esquecido de mencioná-las.
" Tome, ßønd. O seu relógio acabou de voltar da manutenção. A potência do laser foi ajustada e reduzida mas ainda é suficiente para cortar superfícies como madeira, plástico, etc. "
E fez outra pausa, seguida de um muxoxo, ao entregar o último item.
Mesmo agora, em seu quarto de hotel, muitas e muitas horas depois destes momentos, ßønd brincava entre as mãos o passe para o mais precioso aparelho já construído pela Seção Q.
Checou seu visual uma última vez no espelho, depois de totalmente vestido com seu costume Brioni azul escuro, sem gravata e seus sapatos mais confortáveis de couro negro. Telefonou para a recepção, ditando todas as instruções necessárias e demandas para as próximas horas. Trancou a porta do quarto e chamou o elevador.
Ao descer na avenida à beira-mar, percebeu a eficiência com que seu pedido ao manobrista havia sido atendido. Entregou seu passe a ele, que lhe entregou a chave personalizada do estupendo Aston Martin DB9, prateado, estacionado agora à sua frente. Chegara primeiro que ele por avião de carga, não sujeito à atrasos ou desvios.
Ao sentar-se no banco do motorista, lembrou-se das últimas palavras trocadas com Q, quando se despediram em Londres.
" Este é o mais despendioso que já produzimos, ßønd. Mísseis stinger. Carroceria eletrificada. Armas detectoras de movimento. Uma bateria maior para sistema de camuflagem invisível. Todos os acessórios anteriores num só carro. O poder de fogo dele rivaliza com nossos melhores tanque de guerra. Custou 50 milhões de libras, ØØ7. "
Ao notar que ßønd nada dizia, finalizou : " NÃO. DESTRUA. ESTE. "
" Vou cuidar dele como se fosse meu, Q. "
" É disso que eu tenho medo, ØØ7 "
A lembrança desta última frase dita o fez sorrir, se ajeitar no delicioso assento do Aston Martin e arrancar gastando seus caros pneus, partindo velozmente para seu compromisso com Sarah Bat-Seraph.
Fim do Capítulo 007
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 6 - Um Conto de Duas Cidades
" Sabe, Jåµë§... por um momento pensei mesmo que fosse me executar... " - Sarah Bat-Seraph abria largos sorrisos ao lembra-lo da momentânea aliança forjada entre os serviços secretos de seus países. Estavam agora numa pequena cafeteria próxima às escadas rolantes do aeroporto, esperando seu contato.
" Se eu quisesse você morta, teria colocado uma bala na agulha da pistola. " - a arrogância dele, poderia se dizer, rivalizava com dela.
" E se eu quisesse você morto, não o teria deixado com um cantil e uma faca em Abdali, teria ? "
ßønd calou-se. Sabia que tudo fazia parte dos riscos da profissão. O que o incomodava mais não foram algumas horas escapando do calor e dos perigos do deserto, mas sim - ter sido deixado vivo e inteiro.
Os minutos se passaram entre goles café, que ele apreciava apesar de sua origem, e conversas profissionais. Cruzavam seus olhos dezenas de passageiros indo e vindo de seus compromissos e passeios. Alguns nativos e outros estrangeiros. O toque do telefone público os deixou alerta novamente. Se tudo corria como o plano, seu contato avisava de sua chegada ao aeroporto.
-- X --
O gemidos de Sarah eram semelhante ao ronronar felino. Baixos, mas carregados de um sentimento de entrega e de conforto. Sua pele muito branca agora toda marcada e arroxeada pela força dos dedos de ßønd, que a segurava firmemente em todas as posições que a desejava.
Ele a empurrou contra a parede de seu quarto, dominando-a e beijando-a sofregamente. Sarah suspirava um pouco a cada estocada mais forte, às vezes de êxtase, outras de dor por ser duramente invadida. Mas para Sarah ambas as sensações lhe eram prazerosas. Com esforço, entrelaçou suas pernas às costas dele e deixou-se levar pelo momento.
Não se preocupavam com vizinhos de quarto, ou transeuntes nos corredores. Importavam-se apenas em apagar o fogo iniciado desde o momento em que se encontraram, há poucos dias na cidade de Al Jahrah.
Para isso, a música do DVD player fora posta em alto volume.
-- X --
ØØ7 atendeu ao telefone público. Usou sua identificação-padrão e seu código de acesso. Depois de alguns segundos ainda não ouvira qualquer som quando uma voz modulada surgiu.
" Há um táxi esperando por vocês na saída. Em 30 minutos serão levados ao saguão do meu Hotel. Somente aqui, em segurança, poderemos discutir nosso plano de ação. Use seu código de acesso com o motorista. "
ßønd repassou a mensagem para Bat-Seraph que apenas acenou com um menear de cabeça. Já esperavam este tipo de recepção, pois contatos internacionais sempre temem ser desmascarados e sua utilidade perdida. O que significava para eles, muitas vezes, a perda de uma considerável mesada em dinheiro vivo ou - em algumas situações - uma morte súbita e acidental.
Levavam cada um sua bagagem agora pouco se falando, ambos no piloto automático de sua profissão, e descendo o pátio do aeroporto notaram a movimentação sutil de um homem uniformizado. Ele se aproximou, assim como vários outros que ofereciam seus serviços, mas ao contrário dos demais gritou : " Você tem um fósforo ? ".
ßønd sorriu e respondeu : " Eu prefiro um isqueiro. " - e puxou seu antigo Dupont, presente de Felix Leiter.
" É ainda melhor ! " - falou o homem.
" Até eles falharem " - sentenciou ØØ7.
Era o código para reconhecerem um ao outro. Bat-Seraph estava muito séria e ele sabia que suas mãos macias estariam de encontro à uma arma certamente e vasculhando possíveis saídas do ambiente. Agora com o reconhecimento feito, a tranqüilidade voltara ao seu rosto quando ßønd abriu a porta para que ela se acomodasse no banco de trás.
Ele sabia como sua mente trabalhava, afinal, espionaram-se durante algum tempo.
-- X --
Jåµë§ segurava a mão de Sarah e a levava por todos os recantos de Abdali, ao norte do país, tentando impressiona-la com seu conhecimento ímpar de alguns bons lugares na cidade que apesar de relativamente pobre, guardava pequenas surpresas para os turistas.
Jåµë§ não sabia o quanto podia postergar estes bons momentos. Deveria escolher a hora de finalmente serem honestos sobre os motivos de estarem ali. Não era para ser assim, mas ele não resistira aproximação quando a vira pela primeira vez, em fotos, no escritório de M. Claro que ela também já saberia, pois segundo seu relatório uma pessoa com seu nível de comprometimento - ainda que judia - possuiria muitos amigos. Até mesmo no Kuwait pós-guerra.
Então, ela também aceitara o logro.
Possivelmente, estiveram até então brincando um com outro e tentando arrancar informações sorrateiramente, numa disputa inaudita onde o prêmio seria levar a maior quantidade de informações para casa. Infelizmente, este tipo de aproximação não seria bem vista por nenhuma de suas agências.
Logo após o jantar, decidira acabar com a deliciosa encenação. Ficara em silêncio durante quase todo o encontro, apenas aproveitando a visão de seus olhos azuis refletindo a iluminação. Quando ela recusou a sobremesa, deixou alguns dólares americanos sobre a mesa e a levou para passear pelas ruas próximas.
" Então é aqui que nos despedimos " - ela disse quando parou muito repentinamente.
" Sim. Mas nos encontremos num outro lugar, em outros tempos. " - ele respondeu, ciente do que ela realmente queria dizer e certo do que viria a ser discutido após.
" Na verdade, ØØ7, será pela manhã " - e se afastou.
A surpresa não veio pela comprovação de que ela sempre soube sua identidade, ou pela afirmação incisiva. Foi seu tom de voz que se alterou completamente como uma atriz que deixou de simular um sotaque ou um andar diferente. Quando a seringa penetrou seu pescoço e uma poderosa mão encobriu sua boca, percebeu que a hesitação em reagir a isto lhe custara caro. Muito caro.
-- X -
" Porque você está aqui, Sarah ? " - ßønd perguntou rispidamente, dentro do táxi que os levava para a Zona Sul da cidade.
" Pensei que fosse para salvar o mundo, como de hábito. " - ela respondeu de uma forma que aos ouvidos dele nem mesmo pareceu uma ironia. O que era sua profissão que não uma maneira de tornar os seus mundos mais seguros?
" Por que especificamente você ? "
" Acho que nossos empregadores consideraram nosso passado em comum útil, uma vez que estudamos bem o perfil um do outro. Sabemos quem somos e o que antecipar. "
" Ah, hoje eu realmente sei o que esperar de você. Tenho as marcas para provar. " - ele brincou, falsamente não demonstrando o rancor.
" Eu gosto de ser inesquecível na vida de alguém."
Ele olhou para suas pernas educadamente cruzadas e ela percebeu escondendo uma pequena cicatriz na sua patela. Pareceu antever o que ele diria.
" Eu também sei, como você pode lembrar. Seu joelho dói em noites frias ? "
Ela sorriu um tanto sem graça.
O táxi finalmente chegou ao local combinado quando ele saiu, deu a volta sutilmente pela traseira e abriu a porta para que ela saísse. Estendeu sua mão em cortesia no que ela aceitou. O motorista se retirou sem pedir pagamento ou gorgeta. Antes de cruzar a porta de entrada do elegante estabelecimento, ela segurou pela gravata impedindo que ele avançasse e disse.
" Espero que não tenha esquecido o sabor disso. " - e o beijou na boca por muito tempo. Ele gostaria de resistir mas a este tipo de tortura era incrivelmente vulnerável.
-- X --
A figura de boina clicava quase que aleatóriamente a paisagem. Esperava a chegada de um táxi que, quando finalmente chegou, desembarcou um casal que pareceriam uma comissária de bordo e seu acompanhante. Um inglês e uma israelense, segundo informaram.
Ao aproximar o zoom da poderosa câmera, de longe ela pareceu reconhecer um dos alvos. Guardou a câmera depois de registrar um súbito beijo e assistir o pretenso casal atravessar o hall do Caesar Park Hotel, em Ipanema.
" Que mundo pequeno... " - pensou enquanto telefonava de seu celular para seu líder - " ... realmente pequeno. "
Fim do Capítulo 6
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 5 - Apenas Uma Velha Amiga
A visão da janela do avião intercontinental àquela hora tardia proporcionava acima de tudo um espetáculo impressionante mas também a promessa de uma noite tranqüila. A paisagem de cores quentes não excitava os sentidos como deveria, e sim, dava-lhes a oportunidade de apreciar um cenário que no dia-a-dia não se buscava o tempo para contemplar.
Jåµë§ ßønd se permitia a este ponto de sua carreira o melhor do conforto. Os poucos conhecidos com quem ainda mantinha algum contato social e mesmo algumas das mulheres de seu passado consideravam seus gostos esnobes e pedantes. Às vezes, quando se deixava levar pelos comentários, ele costumava dizer-lhes que apenas vivia o dia como se fosse o último. Os risos condescendentes ou de incredulidade que recebia em troca não levavam em consideração o segredo que nem mesmo May, sua fiel governanta, sabia com certeza.
Na sua profissão, todo dia poderia ser o último de sua vida .
Ainda não abrira o relatório que M lhe entregara ao sair de sua confortável sala no MI6 logo após enviá-lo em mais um serviço especial ao redor do globo. Apenas pediu mais uma taça de Martini, enquanto se recostava comodamente na sua cadeira localizada na primeira classe. " As coisas que faço pelo meu país " - riu-se ironicamente. Os seus dedos deslizavam, sentido a rigidez do envelope bege contendo algumas instruções da missão que não haviam sido discutidas no encontro com Faishad Al-Haud. Provavelmente porque nem mesmo ele, que tornara esta investigação possível, poderia saber do desenvolvimento do curso de ação.
Finalmente a curiosidade e a longa viagem o venceram e começou a ler os documentos. A leitura era em quase toda maçante, com uma lista de possíveis contatos, pontos de interesse dos envolvidos e uma indicação de possíveis suspeitos. A voz de M ecoou no seu pensamento:
" Como bem sabe, ØØ7, o passaporte brasileiro é vendido a peso de ouro no mercado negro. Sua população é formada por uma interessante mistura de gêneros e raças sendo praticamente impossível afirmar - sem a devida verificação - se o suspeito pertence àquela comunidade ou não. Para tornar tudo mais complicado, o documento é relativamente simples de falsificar nas mãos de alguém que saiba o que está fazendo. O governo do país vêm prometendo utilizar novos métodos que dificultem futuras fraudes mas até o momento as contínuas ocorrências são preocupantes. "
" E o passaporte do assassino é nossa única pista palpável ? " - ele respondera.
" Sim, infelizmente. " - ela disse secamente - " mas nossos maiores especialistas afirmam que o documento foi forjado há menos de 48 horas, provavelmente feito às pressas, o que nos dá uma vantagem a mais. O estilo e método do falsário combinam com modus operandi de Mohammad Ibn Batut. Mas ele está preso numa cela brasileira esperando julgamento. "
" E como eu terei acesso a ele ? "
" Enviaremos alguém para lhe ajudar nesta operação. Vocês se encontrarão no aeroporto internacional do Rio de Janeiro pela manhã. "
ØØ7 avançou algumas páginas do relatório para saber o nome do agente enviado mas achou apenas um codinome : Sabra. Ao lado dele a frase senha para o contato.
Esta palavra de alguma forma lhe era familiar. Talvez alguém com quem trabalhara no passado ?
Quase não descansou durante toda a noite planejando suas ações nas horas que seguiriam o seu desembarque no Rio de Janeiro, formulando inclusive possíveis rotas de fuga e repetindo todos dados necessários para o seu disfarce. Quando o sono o alcançou, seus sonhos envolviam olhos felinos e pele muito branca. Podia jurar que sentia um odor de frutas enquanto corria atrás de uma figura de mulher que se afastava cada vez mais dele.
Acordou com o aviso do piloto de que iriam desembarcar em minutos. Uma idéia brilhou em sua mente e a ferramenta certa para talvez descobrir um mistério estava a seu alcance, mais especificamente no bolso interno de seu blazer.
Ligou seu potente celular, modificado segundo algumas especificações da Seção Q, e rodou um navegador de internet adaptado para dispositivos móveis. Através de uma ferramenta de busca pesquisou o nome que desejava. Em poucos segundos uma lista de possibilidades apareceram em sua pequena tela.
Sabra poderia ser o nome de uma companhia de automóveis. Poderia ser também um tipo de chocolate. Descendo a lista de possibilidades uma fez seu sangue efervescer.
" Sabra é o nome para descrever judeus nascidos em Israel. " - leu em voz baixa. Agora tudo fazia sentido. Há muito tempo esperava por uma oportunidade de reencontro e seu coração acelerou. Neste momento, percebeu a figura de uma comissária de bordo ao seu lado e uma voz doce e calma de leve sotaque :
" Neste vôo não permitimos celulares ligados, meu senhor "
ØØ7 olhou para cima e seus dentes pareceram estalar ao ranger. Uma mulher de cabelos negros bem curtos e pele apenas adequadamente bronzeada, quase tão alta quanto ele, de olhos azuis frios mas belíssimos o fitava com desdém e soberba. Era ela, finalmente, depois de tantos anos.
" Bat-Seraph " - ele balbuciou.
" Por favor, me chame de Sarah. " - ela respondeu polidamente - "por favor, pode me acompanhar ? "
Ele se levantou com movimentos ágeis e ficou à altura de seus olhos azuis acidentalmente ficando a poucos centímetros de sua boca deliciosamente pequena e indecente: " Certamente... Sarah. "
A voluptuosa mulher o conduziu até uma sala privada na parte traseira da embarcação e ßønd se certificou de que ninguém os notara... ou seguira.
Ao adentrar o pequeno recinto, Sarah Bat-Seraph lhe entregou uma bagagem de mão e o encorajou a abrir.
ØØ7 destravou o fecho da pequena mala e sorriu satisfeito ao ver sua pistola Walther P99, 2 clips extras de munição e um silenciador adaptável.
" M achou que isto poderia ser útil ".
Ao verificar a trava, ele displicentemente carregou a pistola, anexou o silenciador e respondeu à bela mulher :
" Ah, sim. Chegou em boa hora. "
Como um raio, trancou a porta da cabine e com a mesma mão esquerda cravou todos os dedos no pescoço fino de Bat-Seraph empurrando-a numa parede e encostando com força o cano do silenciador embaixo de sua mandíbula. Ela não esboçou a menor reação para a sua surpresa.
" mmmmmm...Isto é jeito..mm.. de tratar uma aliada ? " - as poucas palavras que pôde recitar.
" Talvez eu devesse estender a mesma cortesia que me ofereceu, quando me traiu, drogou, torturou durante dias e me deixou para morrer no Kuwait, o que acha ? " - disse num misto de sarcasmo e raiva.
" Era apenas o meu dever e eu sou muito boa no que faço. "
" E eu sou o melhor no que eu faço. " - destravou a pistola e em seguida apertou o gatilho.
Fim do Capítulo 5
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 4 - A Pergunta de Um Milhão de Dólares
O copo de Bourbon com gelo em sua mão ajudava a aliviar a tensão do encontro recente. M o oferecera, retirado da garrafa prontamente guardada em seu minibar, atrás de sua nova mesa de estilo mais moderno - mais adequado ao tipo de mulher que ela representava e, ao mesmo, aparentando firmeza e durabilidade.
Acima de sua mesa, 4 telas de TV ostentavam vídeos de alta resolução mostrando imagens que ØØ7 só pudera imaginar ou deduzir dos poucos fatos concatenados em sua mente. Após o primeiro refrescante gole, todas as dúvidas sanadas sobre o que realmente ocorrera naquele dia apenas suscitavam mais perguntas ainda nem mesmo formuladas. Observou que Al-Haud permanecia com a tez sempre tranqüila e muito atento ao que M dizia, preenchendo as entrelinhas do que porventura não ficasse claro nas imagens.
" ... e então, neste momento, substituímos o sr. Faishad pelo seu dublê. Uma útil tática adotada pela CIA, não concorda, ØØ7 ? "
Com a pergunta, ßønd foi obrigado a sair do torpor de seus pensamentos e deixar de lado a preciosa sensação do álcool em sua boca.
" Muito útil, M. Imagino o que mais andamos copiando deles. "
" Espero que apenas os bons hábitos, meu caro amigo. " - Faishad Al-Haud sorriu para ele. Jåµë§ retribuiu apenas com outro sorriso e um aceno de cabeça. Voltou-se para M e continuou :
" Nunca antes um dublê havia morrido num atentado. Isso deve desacelerar o mercado de sósias de celebridades, eu acredito. " - parecia sentir o relaxamento causado pelas decorrentes doses educadamente sorvidas da bebida - " De qualquer forma, eu gostaria de saber porque não fui informado. Eu sabia que a ocasião merecia cuidados especiais, mas não a este ponto. "
" Esta informação está restrita apenas ao Primeiro Ministro, seus colaboradores, dois homens de confiança do sr. Faishad, a mim e a Srta. Moneypenny, e agora... a você, ØØ7. "
Jåµë§ ßønd considerou a resposta silenciosamente, pois o sigilo absoluto deste plano só poderia significar uma coisa : a história estava apenas começando. Então, após alguns segundos, perguntou :
" Então, agora posso saber o que está acontecendo ? "
" Naturalmente. Deixe-me abrir alguns arquivos. "
No bater de algumas teclas no console de M, as 4 gigantescas telas fundiram-se numa só imagem que a princípio exibia um mapa mundial e aos poucos foi se ampliando e mostrando a localização do Oriente Médio. Depois, ampliou-se de novo, revelando as fronteiras do Líbano. Mais algumas teclas adiante e a visão aérea da cidade de Beirute surgiu.
" Como bem sabe, recentemente a Rússia liberou uma encomenda para o Irã de uma quantidade indecente de mísseis de curto alcance mas de poder de fogo considerável. Esta negociação causou um certo rebuliço no cenário de armas internacional. "
" Até aí, nada de novo no front. " - comentou ØØ7 . Faishad não esboçou nenhuma reação a isto.
" ... de fato. Mas mesmo assim nos últimos anos a possibilidade de um confronto direto com forças terroristas no Oriente Médio tem se tornado cada vez maior, e este tipo de armamento em poder de partidos políticos guerrilheiros e com más intenções poderia dificultar a empreitada e aumentar consideravelmente o número de baixas entre nossos soldados. Algo que não podemos encorajar. "
" Entendo... e onde o sr. Faishad se encaixa nessa trama ? "
Faishad Al-Haud não estava disposto a apenas assistir o desenrolar dos eventos e decidiu acrescentar algumas palavras por si mesmo :
" Da maneira mais imprevisível possível, meu caro amigo... " - esse último complemento soando falsamente para ßønd - " ... recebendo um aviso de um velho contato no Mossad. "
Nada mais irônico a seus olhos agora. Um palestino proeminente com velhos amigos no serviço secreto israelense. Não impossível mas incrivelmente improvável, a menos que o agente estivesse sendo muito bem pago.
" Entendo seu olhar incrédulo, meu caro ØØ7, mas é verdade. Nosso povo cresce lado a lado em algumas comunidades. Nossas vidas podem se partir pela vontade de Allah, mas a amizade é um laço difícil de se partir. Nunca traímos nosso povo para preservá-la mas cedemos informações que possam ser úteis para ambos os lados. "
ßønd interessava-se cada vez mais por esta versão dos fatos imaginando o que mais poderia vir. Faishad continuou.
" ... sendo assim, quando uma ameaça importante veio aos seus ouvidos ele não hesitou em me avisar. E eu resolvi compartilhar com vocês o recado. "
" E por que todo o trabalho de vir até a Inglaterra ? Poderia ter usado o telefone. A tarifa de ligação internacional deve ser realmente exorbitante, eu suponho. "
" ØØ7, por favor... " - M foi sucinta.
" Está tudo bem, minha cara M. " - disse sorrindo pela admoestação verbal - " Quando avisei ao meu partido sobre o que está por vir, fui proibido de repassar os dados sob juramento de morte. Fiquei encurralado. A situação agravou-se ao lentamente descobrirem minha ligação com Israel. Minhas propostas de paz pareceram aos olhos de meus companheiros profundamente tendenciosas. No fim, a única saída seria pedir proteção a vocês em troca dos pormenores do aviso. "
" Aparentemente, nossos aliados não se incomodaram em nos avisar também. " - disse ØØ7, cortando momentaneamente. Parecia estranho o Mossad não intervir na questão.
" Ah, sei o que está pensando. Mas meu estimado amigo foi morto antes de poder confirmar os dados do ataque e o Mossad não pode se declarar a respeito do que ignoram. Estão investigando tudo silenciosamente, não querem causar alarde. "
" Um ataque ? É positivamente uma ação agressora ? "
" Sim, ØØ7. Por isto todo o cuidado com o transporte de Faishad. " - M acrescentou.
" Interessante. E qual a natureza do ataque ? E por que não pedir asilo aos americanos ? Eles adoram este tipo de tratado. Receberiam um palestino famoso carregado de informações de braços abertos... e, devo dizer, o recompensariam com bem mais virgens do que Allah. " - estas eram as perguntas que não queriam calar.
" Uma bomba atômica defeituosa roubada dos russos pelos rebeldes libaneses. Esta a resposta para sua primeira pergunta. " - M tomou o controle do diálogo neste momento.
Ele virou-se novamente para ela, sorvendo o último gole de bourbon em seu copo - " e a segunda ? "
" Porque o alvo é Londres, ØØ7 "
Fim do Capítulo 4.
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 3 - A Volta Dos Que Não Foram
A sala de interrogatório era cinza e pequena mas, diferente de outras, não continha janelas. Apenas uma abertura de ar. Uma mesa, uma cadeira e uma câmera de gravação no teto completavam a paisagem claustrofóbica. Sua localização era segredo mesmo para maior parte dos ocupantes da sede do MI6, localizado às margens do Tamisa, com seu formato lembrando - ao menos de longe - uma pirâmide pré-colombiana e inspirando uma sensação de respeito e sobriedade no coração de Londres e onde muitas decisões sobre a política externa da Inglaterra foram formuladas..
Jåµë§ ßønd já estivera nela várias vezes a serviço em outros tempos. Então, estar do outro lado do tabuleiro poderia ser uma experiência inédita não fosse a urgência da situação. Já se passara 4 horas desde que Villiers, recentemente nomeado Chefe da Seção ØØ, acompanhava em silêncio o interrogatório enquanto ele repetia sua história indefinidamente para os investigadores. Quando finalmente resolveu se envolver diretamente, aproximou-se de ßønd.
" Conhecemos muito bem seu passado de insubordinação, ØØ7. Este é o único motivo pelo qual sua história faz algum sentido. " - sentenciou.
" Não tenho mais nada a dizer no momento. " - ßønd retrucou.
Villiers ponderou por um momento medindo suas próximas palavras. Poderia manter seu subordinado indefinidamente até que finalmente exaurido, alguma nova evidência surgisse. Entretanto, não o faria por motivos óbvios a este ponto.
" Tem razão, Comandante ßønd. Seu treinamento permite que você resista à nossas técnicas por um longo tempo. E isso não seria produtivo. Vamos apenas assumir que esteja sendo bem preciso no seu depoimento. " - finalizou.
Fez um sinal para o guarda, que abriu a porta. Em instantes uma das muitas secretárias de Villiers adentrou, trazendo em suas mãos roupas que Jåµë§ reconheceu como suas, provenientes de seu apartamento.
" Se soubesse, teria pedido por gentileza para seus homens checarem meus e-mails também. " - soltou olhando de soslaio para a bonita morena que se retirou com um aceno parecendo não notá-lo.
" Queremos que esteja confortável ao se encontrar com M. " - disse apenas olhando a camisa suja de sangue que não era seu.
Depois de ser conduzido a um banheiro privativo, não podia deixar de pensar - enquanto se banhava - na probabilidade de um golpe tão perfeito dar certo. Refez mentalmente todo o roteiro que o assassino deveria percorrer, comparando com as decisões que ele mesmo tomaria, para se aproximar do enviado estrangeiro e sair sem ser notado quando apenas uma bomba teria feito o mesmo trabalho e chamado mais a atenção. E o fato do Chefe de Seção em pessoa acompanhar a investigação era muito suspeito. " Robinson era até esperado, mas Villiers ?" - considerou.
O corpo agora relaxado se expressava com pequenas dores musculares à pressão do toque da esponja. Terminou seu banho, enxugou-se e vestiu-se lentamente, conjeturando que ao menos os subordinados de Villiers tiveram o bom gosto de separar boas peças para ele. Normalmente Brioni era sua marca favorita, mas este terno cinza-escuro John Phillips, presente de uma amiga muito antiga, estava entre seus mais estimados. Depois das cansativas e entediantes horas de interrogatório, sentia-se renovado ao ajeitar a gravata de seda azul, de tom muito sórbio, perante o espelho.
Um agente o esperava à saída do banheiro, que o conduziu tranquilamente pelos andares e corredores que já conhecia como sua própria casa. As salas de reunião, a porta do elevador que levava ao laboratório de Q, que devia estar muito satisfeito por nenhum equipamento ter sido destruído, e finalmente a entrada principal, com o imenso selo do serviço secreto ao chão, indicando que a poucos metros dali chegariam ao escritório de M.
Na porta da ante-sala da chefe do MI6, o guarda o saldou e fez um maneirismo para que ele entrasse. " Obrigado pela ajuda, soldado. Eu sempre me perco nestes corredores. " - o guarda não riu, apenas se retirando discretamente.
" Sempre se perde, Jåµë§ ? " - a suave e distinta voz da Senhorita Moneypenny ecoou e o fez voltar sua atenção para dentro do gabinete - " Isso explica porque está sempre atrasado para as reuniões. "
" Sempre posso me guiar pelo seu perfume, Moneypenny. " - brincou e ao se aproximar da secretária particular de M, completou : " Channel nº5... não é muito clichê ? "
" Assim como Marilyn Monroe, é tudo o que uso ao dormir, Jåµë§ ? " - respondeu sorrindo.
" Hm... tudo que eu levo é minha arma, Penny. "
Antes que a Srta. Moneypenny pudesse responder, o comunicador soou.
" Comandante, acredito que esta informação não esteja em sua ficha de serviço e julgo que não será necessário adicioná-la, portanto sugiro que deixe Moneypenny voltar a assuntos menos importantes, como, por exemplo, trabalhar para mim. " - M disse rispidamente.
" Estou a caminho, M. "
Moneypenny conteve o embaraço tentando intimidá-lo : " Vá logo, Jåµë§. Um dia você vai chegar atrasado ao seu próprio enterro. "
" Espero mesmo nunca chegar a tempo deste evento, Penny. "
Virou-se na direção da sala principal e fechou a porta atrás de si. Lá estava M, com sua aparência falsamente frágil e postura imponente que negava sua avançada idade, acompanhada de mais alguém.
Nada podia prepará-lo para o que veria neste momento e a surpresa o fez hesitar seus passos por um momento. M adiantou-se em apontar-lhe uma das duas cadeiras à frente de sua mesa. Ele se aproximou e sentou-se devagar observando a figura à sua esquerda na outra cadeira com um pequeno sorriso nos lábios e mãos estendidas para cumprimentá-lo.
" Acredito que já se conheçam " - M disse, aparentemente sem sarcasmo que a ocasião mereceria.
" Sim, eu e o Comandante ßønd dividimos uma agradável manhã hoje. " - disse o homem chamado Faishad Al-Haud voltara dos mortos. O homem que ØØ7 não conseguira proteger.
Fim do Capítulo 3
007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 2 - Xeque-Mate em Dois Movimentos
Jåµë§ ßønd nunca esquecera dos tempos da guerra fria quando, ainda inexperiente, aprendera alguns truques simples de sobrevivência e recursos que vão além da tecnologia de ponta da Comunidade. Mais de uma vez a tinta invisível, a escrita formada basicamente por ácido úrico, permitira enviar mensagens escondidas em correspondência simples. A chama de uma vela ao esquentar a caligrafia feita com seu próprio dejeto revelava informações vitais para o cumprimento de alguma missão.
Em tempos de comunicação monitorada e invasão de privacidade o meio mais primitivo pode ser mais funcional. A mullah disfarçada disso tudo sabia, pois seu sinal para um possível cúmplice foi o simples reflexo de seu espelho na direção do provável atirador. Enquanto os técnicos de segurança anulavam freqüências suspeitas, o mais simples dos métodos passaria despercebido.
Mas não para ßønd.
" Torre para Cavalo. O que você está dizendo ? " - escutou em seu ponto comunicador enquanto corria na direção da mulher em busca de respostas. Sacou imediatamente a Walter P99, assustando alguns transeuntes no caminho. A simples visão da pistola fizera com que as pessoas naturalmente se afastassem dele, restando apenas alguns desavisados que ßønd empurrava ao chão sem desculpas ou sutileza.
A mulher com cheiro de tâmaras percebeu sua precipitação e correu para o centro do parque, onde a pequenas ruas formam um macabro pentagrama e levavam para o lado oposto da comitiva. Seria uma questão de tempo até que ele a alcançasse e tirasse dela as respostas que procurava. Em poucos intantes, ela subitamente parou, fazendo com que ßønd diminuísse a corrida e lentamente desacelerasse até encarar seus olhos, sempre com a Walther P99 apontada para seu dorso.
" Quem é você e para quem está trabalhando ? " - ele gritou imediatamente. A mulher com cheiro de tâmaras apenas sorriu delicadamente e seu espelho brilhou de encontro ao sol, apenas incomodando os seus olhos.
Durante uma fração de segundo ficou confuso, somente para se dar conta de era um segundo comando. ßønd atirou-se em direção a uma árvore do parque somente para ouvir o zunido baixo de um bala disparada de um rifle automático supersônico se alojar na direção de onde ele estava apenas há um instante atrás. A mulher tornou a correr, agora com seus passos cobertos pelo atirador que se encontrava longe dalí, de uma posição que ele não localizara ainda. Ele pensava que tudo muda muito rapidamente. Era um dia tranqüilo e agora ele lutava pela sua vida em seu próprio país. Estava protegido apenas por um grosso tronco de pinheiro.
Ao tentar um disparo às cegas, uma lasca da madeira explodiu perto de seu rosto quando uma segunda bala atingiu o tronco. Quase fora alvejado por agir sem pensar. Imóvel agora, considerou suas opções.
" Torre para Cavalo. Onde você está ? Responda imediatamente."
" Estou ao norte da Inner Circle, em perseguição. " - mentiu, pois sua situação era mais apropriadamente de caça do que de caçador.
" Volte para o Open Air, o Rei Negro está seguro e estamos tentando localizar o possível atirador. "
Se o serviço secreto não conseguia uma localização exata por satélite era porque ele não estava exposto por cima, e considerando a visão que ele tinha do Open Air e do pentagrama do Regent´s Park a única explicação era...
" Torre, estou em Xeque. Poderia fazer a gentileza de fazer uma varredura infravermelha a 300m ao sul de minha posição ? " - vociferou calma mas ameaçadoramente.
" Como ? "
" FAÇA ISSO AGORA. "
Não deu atenção aos impropérios dirigidos a ele por Robinson pelo comunicador enquanto percebia que a mulher com cheiro de tâmaras desaparecera de visão. Preocupar-se-ia com ela mais tarde. Se estivesse certo, precisaria chegar mais perto do assassino escondido perto dali. Respirou fundo e tentou uma arrancada na direção de onde viera. Os zumbidos de dois disparos abafados com algum silenciador fizeram ßønd acreditar que estava abusando da sorte. Procurou abrigo em outro pinheiro e aguardou, recuperando o fôlego.
" Torre para Cavalo. Só há dois sinais no momento, próximo de sua posição. Um deles vem de um trailer ao sul de onde está agora. É o nosso alvo ?"
" Afirmativo. Desligo "
A empunhadura da Walther começava a esquentar com a palma de sua mão enquanto refletia seu próximo passo. O ronco do motor do trailer sentenciou sua única opção no momento. O enorme veículo preparava-se para manobrar e entrar no círculo exterior do pentagrama de ruas. Depois de seu aviso pelo comunicador dificilmente ele conseguiria sair do Regent´s Park vivo e isso não levaria a nada, perderiam sua melhor pista.
ßønd levantou e partiu em direção ao trailer levantando sua arma e apertando o gatilho algumas vezes para atingir os pneus que estouraram ruidosamente, dificultando a fuga do assassino. Enquanto corria o mais que pôde sua visão periférica já notava a movimentação em sua direção - o apoio do MI-6 - e sentiu que a sorte estava ao seu lado quando o trailer perdeu a direção, deslocou-se vertiginosamente para a direita e chocou-se à uma antiga árvore. Deixara a mulher com cheiro de tâmaras escapar mas este adversário não iria conseguir fugir dele agora.
" Pena, ainda não se adaptou a dirigir pela mão inglesa " - pensou ao se aproximar velozmente.
Apontando sua pistola para a cabine verificou, surpreso, que o atirador não estava, o que significava que ele estava sozinho no veículo e pulara da cabine. Olhando em volta não havia sinal de fuga repentina ou movimentação muito próxima. Mirou a porta do trailer, semi-aberta e hesitou por um segundo.
Para o que tinha em mente, precisou recarregar sua arma. Colocou uma bala na agulha e disparou. Fuzilando repetidamente a estrutura do trailer e ouvindo subitamente um grito de dor.
" Desculpe, achei que não era educado entrar sem avisar " - soltou num impulso - " agora, sabe como as coisas são feitas. Desarmado, mãos à vista. AGORA."
Um homem baixo, vestido como vendedor comum de guloseimas mas cujo olhar inumano traía sua real vocação saiu do veículos sacudindo levemente os braços em sinal de desarme. Por um instante, fitou ßønd nos olhos raivosamente mas nada disse.
" Quem o mandou matar Faishad Al-Haud ? " - Jåµë§ ßønd perguntou em voz muito alta. Em segundos, reforços estariam chegando e ele queria informações antes. O homem baixo nada disse e ele sabia que teria que ser mais insistente. Aproximou-se, atingiu-o com a coronha, o que fez o assassino se ajoelhar de dor. Encostou o cano da Walther em sua cabeça e disse :
" Acho que não me escutou direito, vamos tentar de novo. "
O homem abriu os olhos e passou a balbuciar em árabe algo para ßønd. A língua não era seu forte, mas reconhecera como uma oração. O árabe levantou-se como um raio e tentou agarrá-lo. Levantou a arma para golpeá-lo de novo... mas nunca teve a oportunidade.
O sangue espalhou-se por toda a roupa de ßønd quando o crânio do assassino explodiu na sua frente com o projétil que a atravessou e criou uma saída através de sua cabeça muito maior do que a entrada. O corpo do homem baixo caiu sinistramente e estrebuchava já sem vida, num reflexo post-mortem.
ßønd se jogara ao chão instintivamente mesmo sabendo que a bala partira de arma aliada. Quando o reforço o cercou, levantou-se tentando inutilmente limpar o sangue com as mãos e fechou comicamente um botão em sua camisa, causando estranheza aos agentes presentes.
" Desculpe. Mas tive minhas ordens. " - disse o líder da ofensiva, um dos agentes palestinos que protegiam Al-Haud. Um jovem moreno, pele marrom, muito alto, pouco comum em sua gente, rosto tranqüilo. Tranqüilo demais para uma ocasião como esta.
" M ficaria orgulhosa de um agente com sua prontidão... " - Jåµë§ baixou os olhos para o morto, e completou : " ...e sua mira excepcional. " O palestino apenas assertiu afirmativamente e se retirou distribuindo ordens e posições.
ßønd foi levado até o Open Air, onde Robinson se encontraria com ele. No caminho pensou que o ataque tinha sido muito simples e quase bem sucedido não fosse pelo detalhe na cúmplice. O idéia de que todas as peças neste jogo mortal sempre sabem seus movimentos riscou novamente seus pensamentos. Poucos instantes depois, o utilitário negro que o transportava deixou-o às portas do gabinete seguro do Open Air. Não demorou a ver que algo estava errado. Aumentando os passos e virando um corredor encontrou-se com Robinson que o encarou sério e apenas apontou para o ambiente privativo da comitiva de Faishad Al-Haud.
Ele não precisava entrar para saber o que iria encontrar. Atravessando a porta, viu os corpos de alguns seguranças particulares abatidos a tiros ( provavelmente com silenciadores ) e Al-Haud também ao chão, com uma pequena marca de penetração em sua testa, de onde alguns filetes de sangue ainda escorriam, com o rosto inexpressivo e olhar perdido.
O Rei Negro caíra.
Fim do Capítulo 2
[+] 007 - O Último Trem Para Londres
by Jåµë§ ßønd
Capítulo 1 - O Único Truque Que Nunca Aprendeu
O Regent´s Park estava agitado, com seus quiosques e música, com sorrisos em rostos otimistas passeando pela grama da bela tarde de verão em Londres onde podia se perceber, em momentos como esse, a cultura plural desta parte da cidade. Não muito longe da Chester Road, um transeunte até avistaria uma das maiores mesquitas da cidade com seus freqüentadores que circulam tranquilamente durante todo o dia e que pouco fazia lembrar a tensão racial e perseguição de poucos anos atrás.
No centro das pequenas ruas da construção, o Open Air recebia a visita de uma delegação Palestina ao país, discursando para seus partidários e para um público de curiosos numa manifestação pacífica. Paz que o governo de Sua Majestade faria de tudo para manter a qualquer custo, não interessava, pois, nenhuma fagulha que pudesse levar a um novo incidente como o do assassinato no metrô local.
Além dos tradicionais policiais do reino, trajados adequadamente e agora possuidores de armamento comum, concatenavam-se a eles também soldados, homens da Scotland Yard à paisana e seguranças particulares da própria comitiva. Ao som leve de música típica ecoando pelos auto-falantes à distância, a movimentação era semelhante a um jogo em que todos sabiam exatamente seus papéis, atuando a contragosto ou não.
Ao menos esta era a impressão causada ao homem observando tudo à uma distância suficiente para não ser notado e perto o bastante para perscrutar o ambiente em busca de pequenas falhas, pequenas incongruências em comportamento, qualquer indício de que algo podia estar errado. Há muito ele sabia que para o MI6, o serviço de inteligência militar bretão, prever o pior é a melhor maneira de salvar vidas e por mais controlada que uma situação possa aparentar, o melhor truque do diabo é fazer acreditar que ele não existe.
O homem vestia-se de maneira não tão formal, mas conservando a sobriedade necessária para não chamar a atenção. Dentro de seu paletó cinza, de corte reto e atual saído de algum editorial de moda executiva, uma ferramenta pouco usual entre homens de negócios descansava em um coldre de couro macio. Uma Walter P99 de tiragem exclusiva para o MI6 totalmente carregada e destravada que fazia, infelizmente, algum volume em sua roupa.
O som em seu ouvido interno interrompeu o primeiro gole em sua limonada, que o refrescaria do calor londrino:
" Torre Branca para Cavalo Branco. Over."
O homem demorou a responder, bebendo todo o conteúdo em um gole só... dando a si alguns segundos para se recompor e só então respondeu.
" Cavalo Branco para Torre Branca. Estou posicionado a oeste da York Bridge agora. "
Enquanto esperava a resposta, sentiu um aroma diferente no ar. Como um perfume oriental borrifado à exaustão, mas que, diferente da maioria em excesso, não causava enjôo ou repulsa. Pensou ser de alguma árvore.
"Cavalo, retorne à posição inicial. As ordens são para não se afastar do Rei Negro. " - a voz não deixava dúvida. Era Robinson, um dos mais eficientes agentes de coordenação da Comunidade. Gostava de Robinson, trabalhavam juntos regularmente. Ganhar o seu respeito não era fácil, mas ele conseguira com os anos.
" Imediatamente, Torre. " - disse, respondendo ao chamado.
O homem a quem seus superiores chamavam pelo codinome de uma peça de xadrez, atirou seu copo em uma lixeira e voltou pelo caminho que viera, por dentro do círculo interno do parque, até atingir o ponto combinado, que ele considerava inútil, uma vez que ali se concentrava a maior parte da segurança ostensiva e onde o público se localizava. Mas as ordens foram explícitas.
Enquanto observava Faishad Al-Haud, o líder espiritual da comitiva pregando os ideais de paz tão necessários e, ao mesmo tempo, tão inatingíveis para uma parcela da comunidade palestina, o homem de paletó cinza virou instintivamente a cabeça ao sentir novamente o perfume adocicado que lembravam agora as tâmaras do Egito.
Seu olhar se concentrou numa mulher de pele muito branca e olhos felinos, revelados por sua burca, que cobria todo o resto de seu corpo, para desagravo dele. Ela se movia fluidamente entre o aglomerado à sua volta, atraindo alguns poucos olhares eventualmente e seguindo sempre em frente. Havia alguma coisa nesta mulher que o desconcertava, algo difícil de definir.
Expulsou-a de seus pensamentos quando a familiar voz em seu ouvido ecoou além da estática.
" Rainha Branca para Cavalo. Over." - ele respondeu com destreza ao reconhecer a voz de M :
" Aqui é Cavalo Branco. Rei Negro pronto para se retirar. Acompanhando. "
Estar fazendo o papel de segurança particular de um político não o incomodava de verdade, pior destino seria ficar em sua enfadonha sala, no prédio do MI6, organizando a papelada e documentos atrasados na burocracia que sempre o engolia entre uma missão e outra. Os intervalos podiam durar meses e qualquer atividade como esta era até bem-vinda. A chance de respirar ar puro e ainda ser pago para isso.
A comitiva principal preparava-se para sair e o burburinho sempre gera uma pequena tensão, pessoas querendo se aproximar, entrevistas a serem dadas obrigatoriamente e outros itens indispensáveis para homens cuja missão é espalhar suas idéias pelo mundo. Tudo isso ele atentamente observava, quando seus olhos pairaram novamente naquela mulher, que se posicionara à distância discretamente. Curiosamente, levava em suas mãos um espelho de maquiagem aberto, e isso não era incomum entre muçulmanas vivendo na Inglaterra. Mas a maneira como ela balançava o espelho insistentemente... um arrepio percorreu sua espinha como água gelada do Tâmisa.
" Cavalo para Torre. Cavalo para torre. Over. "
" Torre na escuta. Over "
" Há um atirador. "
Fim do capítulo 1.
[+] O Espelho Tem Duas Faces
>> Tc estava alí, na minha frente, dissertando sobre como era melhor não se envolver nos assuntos alheios. A vida dos nossos amigos não lhe dizia respeito, não sendo seu papel tomar uma posição. Dizia reprovar suas atitudes mas apenas isso.
Um verdadeiro bastião do pensamento racional e correto.
Não fosse isso uma grande mentira.
Eu descobri que ela, sim, tomava partido. Não só escolhia lados como agia nos bastidores. Tomou a própria iniciatia de ligar, manipular e assediar moralmente o lado que considerava inimigo.
Eu disso tudo obtive provas concludentes, mas nada disse a ela.
Quando alguém é capaz de tal mentira na sua frente e de tais ações
contra quem ela decide estar certo ou errado nunca faça nada...
... apenas sente, peça um mojito e assista à queda.
A Revolução dos Dândis - [ Engenheiros do Hawai ]